Uma nova representação protocolada na Ouvidoria do Ministério Público do Tocantins (MPTO) colocou sob os refletores o prefeito interino de Praia Norte, Abrão Carolino da Silva, conhecido politicamente como Cabeça (PP). A acusação, que também chegou a ser apresentada e posteriormente arquivada na Câmara Municipal, aponta um suposto esquema de triangulação financeira envolvendo o gestor, o prefeito de Axixá do Tocantins, Auri-Wulange Ribeiro Jorge, e a construtora Realeza Construções Ltda.
A peça acusatória sustenta que, embora a Realeza Construções Ltda. esteja formalmente registrada em nome de Francisca de Araújo Santos, o verdadeiro controlador de fato da empresa seria o próprio Abrão Carolino. A empreiteira em questão já é um alvo conhecido do Ministério Público: ela está no centro da ação de improbidade administrativa que culminou no afastamento judicial da prefeita titular, Bruna Gabrielle Neves Pires de Araújo. A investigação daquela ação apura irregularidades em contratos de R$ 4,48 milhões para locação de automóveis e recuperação de estradas vicinais, com indícios do uso de máquinas da própria prefeitura nas obras executadas.
O fluxo financeiro e as gravações anexadas
O cerne da denúncia apoia-se em um conjunto de mídias que inclui capturas de tela de conversas, arquivos de áudio e comprovantes bancários. Conforme o relato dos denunciantes, o esquema teria operado por meio de repasses cruzados:
-
O repasse inicial: Um homem identificado como Civanildo Morais da Silva teria efetuado uma transferência de R$ 90 mil diretamente para a conta pessoal do prefeito interino, Abrão Carolino. A acusação alega que este montante tinha como destinatário final o prefeito de Axixá, Auri-Wulange Ribeiro Jorge.
-
O ressarcimento: Em um momento posterior, a Realeza Construções Ltda. teria enviado um Pix de R$ 97 mil para Civanildo. Para os autores da denúncia, o valor seria a devolução do montante inicial corrigido por juros.
Nos arquivos de áudio anexados, interlocutores discutem a liberação de recursos públicos, a liquidação de notas fiscais e mencionam a necessidade de “pagar o homem”. Contudo, as gravações não trazem menção explícita ao nome de Auri-Wulange ou à justificativa legal dos pagamentos, cabendo à narrativa da denúncia estabelecer tal conexão. A veracidade e o contexto dessas provas ainda passarão pelo crivo do Ministério Público caso um inquérito formal seja aberto.
Contexto de repasses de Emendas Parlamentares
A denúncia sugere que os episódios narrados se intensificaram após a liberação de verbas estaduais para Praia Norte. Um levantamento no sistema oficial Transfere.TO detalha que, entre o ano de 2023 e junho de 2026, o município foi contemplado com R$ 5.823.672,00 em emendas parlamentares de deputados estaduais, distribuídas da seguinte forma:
-
Valdemar Júnior: R$ 2.249.000,00 aplicados na manutenção e custeio de serviços de saúde.
-
Olyntho Neto: R$ 1.292.289,00 concentrados exclusivamente na área de saúde entre 2023 e 2025.
-
Amélio Cayres: R$ 1.186.061,00 divididos entre reformas em postos de saúde, insumos hospitalares, repasses de transferências especiais e R$ 150 mil para o evento festivo Carnatecno.
-
Cláudia Lelis: R$ 866.322,00 focados na compra de veículos municipais, custeio de saúde e recuperação de vias rurais (esta última parcela, de R$ 300 mil, segue em fase de aprovação de plano de trabalho).
-
Jair Farias: R$ 230.000,00 destinados à saúde e aquisição de veículo para a frota municipal (2023-2024).
Cabe ressaltar que a destinação e o recebimento dessas emendas parlamentares são mecanismos plenamente legais e, por si sós, não configuram atos ilícitos.





