Enquanto o debate público se perde em promessas genéricas, o verdadeiro jogo de xadrez acontece onde o voto é conquistado no corpo a corpo e nas alianças de conveniência. A disputa pelas 24 cadeiras da Assembleia Legislativa (Aleto) deixou de ser apenas uma eleição parlamentar para se tornar uma operação de guerra pela manutenção de hegemonias regionais.
A Revoada dos Ex-Prefeitos: Estratégia ou Refúgio?
O número recorde de ex-prefeitos na disputa não é coincidência nem apenas “vontade de servir”. Para quem conhece as engrenagens do Tocantins, a leitura é pragmática: após oito anos de caneta na mão, um gestor que sai do cargo corre o risco de ser esquecido ou alcançado por fiscalizações rigorosas.
A Aleto surge como o porto seguro. Eleger-se deputado estadual garante que o ex-prefeito continue sendo o “padrinho” de suas bases, mantendo o sucessor sob rédea curta e garantindo uma vitrine política que o protege do isolamento. Não é renovação; é reciclagem de influência.
Só na capital, temos o embate de gigantes: Carlos Amasta (Podemos) e Nilmar Ruiz (PL). Para eles, a Assembleia não é o destino final, mas um trampolim ou um escudo. Amasta busca recuperar o protagonismo que perdeu nas últimas tentativas majoritárias, enquanto Nilmar tenta reativar uma base que conhece as engrenagens do poder como poucos. Os nomes surgem de todos os cantos do estado, de Zé Viana (Paranã) e Cezinha (Lavandeira) ao Professor Adriano (São Sebastião) e Ho-Che-Min (Praia Norte), a lista de ex-prefeitos só aumenta.
A Política como Negócio de Família
A análise dos nomes registrados revela que a política tocantinense segue a lógica do espólio. O que vemos é a consolidação de “dobradinhas familiares” que transformam o Legislativo em uma extensão da sala de estar. Irmãos, maridos e esposas dividem o território para garantir que o poder não saia do núcleo familiar. Se um grupo perde o controle de uma prefeitura, compensa ocupando uma cadeira na Assembleia.
A família Andrade, veterana nas artes do poder, joga em duas frentes que, embora pareçam colidentes, servem para cercar o eleitorado por todos os lados. De um lado, o deputado federal Antônio Andrade (PSDB) ensaia um recuo estratégico para a Assembleia; do outro, seu irmão e ex-prefeito, Otoniel Andrade (PRD), entra na mesma raia.
O deputado Eduardo Fortes, com as bases fincadas no Sul do estado, especialmente em Gurupi, agora vê na esposa, Kátia Chaves, a peça para colonizar politicamente o Bico do Papagaio. É a política de exportação: usa-se o capital político de um lado para abrir caminho para o cônjuge do outro. Se ambos vencerem, o casal deixa de ser apenas uma força regional para se tornar um bloco de votos decisivo dentro da Casa de Leis.
Com tantos nomes “repetidos” e laços de sangue dominando as candidaturas, fica a pergunta que ninguém quer responder em Palmas: Onde está a renovação real? O Tocantins assiste a uma dança das cadeiras onde as cadeiras mudam, mas os sobrenomes são os mesmos de trinta anos atrás.





